23 agosto 2009

A pergunta sem resposta

Essa é uma pergunta que já tirei há muito tempo da cabeça, justamente porque não sei respondê-la.

Não sou o único. No decorrer de todos estes anos, convivi com todo tipo de pessoas: ricas, pobres, poderosas e acomodadas. Em todos os olhos que cruzaram com os meus, sempre achei que estava faltando algo – e estou incluindo aí guerreiros, sábios, gente que não teria nada para se queixar.

Algumas pessoas parecem felizes: simplesmente não pensam no tema. Outras fazem planos: vou ter um marido, uma casa, dois filhos, uma casa de campo. Enquanto estão ocupadas com isso, são como touros em busca do toureiro: não pensam, apenas seguem adiante. Conseguem seu carro, às vezes conseguem até sua Ferrari, acham que o sentido da vida está ali, e não fazem jamais a pergunta. Mas apesar de tudo, os olhos traem uma tristeza que nem estas pessoas sabem que tem.

Não sei se todo mundo é infeliz. Sei que as pessoas estão sempre ocupadas: trabalhando além da hora, cuidando dos filhos, do marido, da carreira, do diploma, do que fazer amanhã, o que falta comprar, o que é preciso ter para não sentir-se inferior, etc.

Poucas pessoas me disseram: “sou infeliz”. A maioria me diz “estou óptimo, consegui tudo o que desejava”.

Então pergunto: “o que lhe faz feliz?”

Resposta: “Tenho tudo que uma pessoa podia sonhar – família, casa, trabalho, saúde”.

Pergunto de novo: “Já parou para pensar se isso é tudo na vida?”

Resposta: “Sim, isso é tudo”.

Insisto: “então o sentido da vida é trabalho, família, filhos que vão crescer e lhe deixar, mulher ou marido que se transformarão mais em amigos que em verdadeiros apaixonados. E o trabalho vai terminar um dia. O que fará quando isso acontecer? “

Resposta: não há resposta. Mudam de assunto. Mas sempre existe algo escondido: dono de empresa que ainda não fechou o negócio que sonhava, a dona de casa que gostaria de ter mais independência ou mais dinheiro, o recém-formado se pergunta se escolheu sua carreira ou a escolheram por ele, o dentista queria ser cantor, o cantor queria ser político, o político queria ser escritor, o escritor quer ser camponês.

Nesta rua onde escrevo a coluna e olho as pessoas caminhando, posso apostar que todo mundo está sentindo a mesma coisa. A mulher elegante que acaba de passar gasta seus dias tentando parar o tempo, controlando a balança, porque acha que disso depende o amor. No outro lado da calçada eu vejo um casal com duas crianças. Eles vivem momentos de intensa felicidade quando saem para passear com os filhos, mas ao mesmo tempo o subconsciente pensa no emprego que pode faltar, nas tragédias que podem acontecer, como se livrar delas, como se proteger do mundo.

Folheio as revistas de celebridades: todo mundo rindo, todo mundo contente. Mas como frequento este meio, sei que não é assim: está todo mundo rindo ou se divertindo naquele momento, naquela foto, mas de noite, ou de manhã, a história é sempre outra. “O que vou fazer para continuar aparecendo na revista?” “Como disfarçar que já não tenho dinheiro o suficiente para sustentar meu luxo?” “Ou como administrar meu luxo fazê-lo maior, mais expressivo que o dos outros?” “A actriz com quem estou nesta foto rindo, celebrando, pode roubar meu papel amanhã!” “Será que estou mais bem vestida que ela? Por que sorrimos, se nos detestamos?”

Enfim, fico com os versos de Jorge Luis Borges: “Já não serei feliz, e isso não importa/ há muitas outras coisas neste mundo”

http://www.warriorofthelight.com/port/edi202_pergunta.shtml

22 agosto 2009

chove adiante

Lutar contra certas coisas que só passam com o tempo é desperdiçar sua energia. Uma curtíssima história chinesa ilustra bem o que quero dizer:

No meio do campo, começou a chover. As pessoas corriam em busca de abrigo, excepto um homem, que continuava a andar lentamente.

- Por que você não está correndo? - perguntou alguém.

- Porque também está chovendo na minha frente - foi a resposta.

 

http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/2009/08/22/chove-adiante/

 

20 agosto 2009

Serei Feliz?

Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um "não".

É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir
um castelo…

Fernando Pessoa

O amor, quando se revela

O amor, quando se revela, 
Não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p'ra ela, 
Mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente 
Não sabe o que há de *dizer. 
Fala: parece que mente 
Cala: parece esquecer 

Ah, mas se ela adivinhasse, 
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse 
Pr'a saber que a estão a amar! 

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente 
Fica sem alma nem fala, 
Fica só, inteiramente! 

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe 
Porque lhe estou a falar..

 

Fernando Pessoa

07 julho 2009

''O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. 
Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender... 
O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...''

( Fernando Pessoa )
"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa." Fernando Pessoa

06 julho 2009

(...)um dia amei
e julguei que me amariam
mas não fui amado
e não fui amado
pela única grande razão:
porque não tinha de ser.
consolei-me voltando ao sol e à chuva(...)

Alberto Caeiro

27 junho 2009

BONS AMIGOS

Uma homenagem a todos os meus grandes e verdadeiros amigos, que são, que
hão-de ser, que já são mas ou eu ou eles ainda não sabemos!


"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro p'ra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora p'ra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a
realidade.
Porque amigo é a direcção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!"

Machado de Assis

O ultimo post é um poema da autoria de Ruy Belo

Contigo aprendi coisas tão simples

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

O amor não existe!

O amor é o desejo. Desejar muito alguém é amá-lo. O sentimento de paixão é esse desejo a manifestar-se no nosso ser, é a máquina que faz o amor instalar-se. Mas esse desejo acaba. Nada dura para sempre. Nada mesmo, acreditem.

Então o que faz duas pessoas manterem-se juntas durante anos? Qual é o sentimento?

É difícil definir, porque não é um sentimento. São muitos. São os sentimentos que a paixão e o desejo criaram. São memórias. São vivências. É o medo. É a amizade. É conhecer o outro. Suportá-lo. Parece muito directo, mas tudo se resume a suportar o outro. E gostar o suficiente para entender que para ser suportado por alguém, é necessário ser suportável.

São as memórias dos momentos que passaram e que ficaram, que elevam algo em nós que outra pessoa ou recordação não conseguiria. É isto que faz manifestar os sentimentos de amor e amizade, os carinhos no casal, a sua aproximação.

O medo… o medo é outro sentimento existente numa relação que a mantêm unida. Aliás, o medo mantém muita coisa neste mundo. Neste caso falarei no medo do que as pessoas diriam se algo acontecesse ao casal “perfeito”. O medo de magoar o outro. O medo por causa da família, dos filhos. Medo de não saber o que vai acontecer, onde morar, que complicações traria à vida. Medindo este medo, é que a pessoa sabe se o que gosta do outro é suficiente para evitar a separação e enfrentar os problemas que a mesma traria. E aí há a cobardia de enfrentar o medo, ou a facilidade para o fazer, por não aguentar o sentimento. Nem sempre se trata de coragem.

A amizade. O sentimento mais nobre do ser humano. É um sentimento que nos faz ser altruístas, prejudicando-nos em prol do outro. Numa relação não seria diferente.

O amor perfeito não é mais do que o equilibro exacto de todos estes sentimentos. As crises dos casais não são mais do que uma avaliação de tudo aquilo que nos vai no coração e na alma. Ser amado é muito mais difícil do que amar, pois não depende só de nós. Procurar o amor é algo que todos fazemos. Mas é utópico. O amor não se acha. O amor não se constrói. O amor não existe. O amor somos nós. O amor é saber viver e deixar viver. O amor é compreender que se formos tudo o que queremos ser, então seremos felizes. Mas não é apenas deixar acontecer.

Deixar acontecer as coisas é como ver um jogo de futebol. No fim do jogo nada há a fazer senão criticar o árbitro. Viver é também fazer escolhas. Essas escolhas trazem consequências. Escolham bem. O resto acontece. O amor não existe, mas a felicidade sim. Sejam felizes nas vossas escolhas.

Luís Vieira – 27 de Junho de 2009

poema ao acaso